O desfecho de Flávia Albuquerque | CAPÍTULO I

Meus caros,
Como um escritor amador, busco peregrinar aos mais diversos mundos das letras; seja nos estilos, gêneros, técnicas, formas, linguísticas, meios, observações, etc. a fim de desvendar novas aptidões através dos mares da expressão.
Vou criar um projeto. Na verdade, um autoteste. Então, na edição de vários contos com perspectivas variadas; poderei dar a enxergar alguns pontos em desempenho como escritor.


o desfecho de etc MONTEZ
I
Que trem

 

Começo de forma banal. Descreverei um local privilegiadíssimo – um vagão de trem. Sei que leitoras esperam doces paisagens. E quem nunca se deleitou a contemplar belos jardins, não é mesmo? Perdoem-me; não foi este caso. Garanto-lhes que as mazelas deste vagão se encaixam como luva neste conto. Vamos logo, então, ao início.
Sentada, a cada três segundos, sinto batidas abaixo dos pés; com isso, leves passageiros, como eu, quicam no banco. Afirmo que não é um incômodo dedicado, pois por repetições irregulares, essas investidas amortecidas faziam com que as portas rangessem. Tá tudo certo para mim. Agora, pra quem vem de primeira experiência, um som insuportável. As cores descascadas do teto e da parede gritam carência de afago; os assentos preferenciais mal conseguem exalar diferença dos assentos comuns.
Focada nos detalhes, não obstante, meu raciocínio se rompeu por um susto.
— Um boa noite, sra. Flávia Albuquerque, vai um chocolatinho para adocicar? — Um ambulante ofereceu-me.
Aff. Que vergonha! Mas tal merecida – esqueci de guardar o crachá do trabalho na minha bolsa. Leu-me dali.
— Ah… hoje não, moço. Obrigada. — tadinho’… todo educado quis me impressionar ao chamar-me pelo nome.
Que pena, eu estava dura; o dinheiro contado. Pois é, a vergonha seria maior, se no meu crachá colocassem “Silva e Souza” de sobrenome no final. O sobrenome Albuquerque, do meu marido Saulo, serviu pra alguma coisa, de vexame. Afinal, temos de desbrasileirar um pouco, não é? Todo mundo deseja isso… Nas redes, pessoas usam nomes que nem lhes são próprios. Parecer sofisticada e gringa é ótimo, pelo ao menos parecer, né.
Aprumada ao banco, vi que as janelas pediam pano; um vidro aqui, outro li e acolá possuem bafões de apoiar a cabeça.
Este ambiente se torna simplório quando inserido ao lado duma cena que contemplei: Antes de mostrá-la a vocês, leitores, é necessário dizer que Saulo, meu esposo, nunca quis saber sobre o trajeto que faço do trabalho para minha casa. Pois burro, evitaria desconfortos.

Retomada a característica igual às janelas podres, através de uma delas, enxerguei um sinistro. Quando chegada à estação Brasilândia, meu canto do olho percebeu algo familiar… No primeiro lance, me estranhei pela aparência de um homem, muito parecido com o meu. Estava, entretanto, nojento, como que um polvo a brigar com uma presa; ridículo, lançava seus tentáculos a uma garota idêntica a uma barata, a uma barata mesmo. Lacraia feiosa. Seria Saulo? Ah, não, meu. Isso não me desceu. Tive de dar uma terceira olhada; e outra de uma coçada aos olhos. Que baque, eu tive. A certeza última me veio à tona quando lhe notei roupas que eu mesma escolhi, hoje de manhã. A lacraia do traíra tremia com o veneno do molusco, jorrando às entranhas. Não deu, foi demais, virei meu rosto para o oposto, ao corredor do trem. Lutei para não tornar a visão àquele ângulo. A mandíbula doeu, sofri até o trem sair de Brasilândia.
Tamanha merda! Chamei o mocinho do chocolate. Gastei todas as moedas que eu tinha para voltar para casa. Sequei a caixa do mocinho, que alegremente me entregou as barrinhas; e, tidas, enfiei-as na goela. Foi o que fiz para disfarçar meu estado. Se bem que não deu muito certo.
— Você tá bem, sra. Albuquerque? — o mocinho notou-me lágrimas na face.
O marretinha provocou rude. Me chamou de Albuquerque. Já que isso me lembrou Saulo, o tentáculo; me ofendeu. Agora todo meu ódio ao Albuquerque! Que bosta. A luta de forçar o não-choro, fez-me derramar mais que poucas lágrimas. Quebrou minha máscara, o disfarce e a maquiagem.
Ao pesar do menino, dei-lhe uma joia com o polegar; de que estaria ótima!
Meus nervos em pane me fizeram ficar de pé. engoli o excesso de açúcar adentro, desceu à rasgada, conforme o estado do meu coração…
Agoniada, disparei mensagens para minha best. Tive problemas com o celular, as lágrimas lavavam-no, o touch enlouquecia, mas nada que atrapalhasse minha erupção. O fato da traição do Saulo fê-la reproduzir centenas de frases catalogadas, cito as piores: “Amiga, ele nunca foi para você”, “Tudo passa, tudo passará”; “Você sempre mereceu coisa melhor”, “Tem muitos homens bons por aí esperando por você”; “Nunca é tarde para recomeçar”; “Você é linda, vai arrumar alguém logo, logo”; “Eu sabia, quando a pessoa não tem caráter, uma hora cai.” “Calma, ele pagará pela lei do retorno” entre outras não sei o quê, não sei o que lá.
Naquelas horas eu queria um ouvido de alguém, especificamente dela. E, olha, poderia ser outra pessoa. Mesmo best, não desmereci o esforço. Acredito que ela até tentou me ajudar, sabe. Poxa… queria um auxílio, porém, não… O vocabulário de autoajuda me fez-me fechar a janela de conversa. Tchau mundo… deixei o celular no silencioso. Portanto, leitores e leitoras, não me levem a mal. Ofereçam conselhos!
Presenteiem conselhos; nada além de conselhos; pelo amor!
Silenciada e só. Dialogar consigo mesma me daria mais respostas.
Esperei o pedaço do meu nada decidir em qual estação sair. Do meu nada nada.
Desceria em qualquer uma. Pensei e pensei. Acabei em nada decidir. Só saí da estação porque tinha de sair. Cheguei à última estação.
Outra vergonha não, ser chutada do vagão afora, não. Vomitei-me pelo trem; tornei a pensar, e pensar. Algumas questões me vieram. Inevitáveis, — Faço o quê, agora? – foi a primeira, clichê por sinal. — Eu me amo tanto! – mais clichê ainda. — Porquê me amo tanto? Me amo porque não posso sofrer; e sofrer por um tosco, não. Não posso! — Essas conjeturas foram caos.
Rumo à saída, o pêndulo martelava nestes delírios. Tanto que me calejei.
Meu cérebro pifou. O cara com quem vivi há seis anos me traíra. Pior, me traíra com uma barata. Ou um barato; não quis reparar na outra pessoa para não me decepcionar ainda mais. Saibam, leitores, eu jamais o dei motivos; sempre fui mulher a ele, uma mulher incrível! Várias vezes, louca, eu me deixava ser eu para sê-lo. Digo que eu já me via nele; e rendida. O meu amor nele era grande; apenas porque eu queria me ver feliz. Como muitos. Eu queria e quero ser feliz. Neste sentido, — Eu me amo tanto! – por tal razão, quero ver-me feliz com alguém. Amar, assim, parece um ato egocêntrico. Por isso, sempre em exagero, o agradei todos os dias, para que todos os pedaços do meu “eu” nele fossem atingidos; e assim, eu seria contemplada de alguma forma. No meu caso infeliz, foi Saulo o escolhido. Bem digo: foi; foi no passado. Agora, não mais.
Vejamos que ele me foi uma sanguessuga à alma; acabou de destruir os pedaços meus que estavam nele. Acredito que, sem saber de outros casos que ele teve com alguém, aos picadinhos se desmoronam com meus “eus”.

Nada bem. Nada bem pra mim, nem para vocês, leitoras e leitores – nada bem para vocês aprofundarem nas minhas ideias e sentimentos. É chato, não? Sei que vós preferíeis uma narradora mais afobada; esvoaçada; motorista que passa em farol vermelho; atropeladora de gatos. Se eu lhes fosse, este conto terminaria mais rápido, poxa. Daí teríamos tempo para fazer outras coisas mais interessantes. Juventude moderna! Todavia, sem enrolação, as ações engoliriam aspectos internos, importantíssimos de fato; talvez seja esse o motivo da minha lentidão. Eu chegaria ao final com um pulo. Nada bem; o texto cairia no esquecimento. Cairia ao fastfood.
Dou um desconto, engato uma marcha mais rápida. Retornemos. Depois que saí da última estação de trem, um outdoor acusava 23hrs e pouco; 6 graus e temperatura. Tarde e na friaca’.
Durante meus devaneios, minha cabeça havia perdido a noção de tempo e espaço. E não; antes que me perguntem, não estava agasalhada o suficiente. Sem problemas. Meu coração gélido se conjugava perfeitamente ao clima. Na saída da estação nada havia.
Nenhuma forma zumbi descabelada como eu compartilhava o mesmo caminho. Sem grana, que fora para o marreteiro, não tinha possibilidade retornar adentro da estação.
Enfim, me dirigia à única vereda possível:
À minha frente tinha uma ponte, tinha uma ponte no meio do caminho; tinha uma ponte; no meio do caminho tinha uma ponte. Caminhei… Os carros, lá embaixo, convidavam-me a outra lógica. “Sou um espetáculo; um espetáculo do universo. Abaixo de mim, as luzes correntes contemplam minha sandice”. Sentei no parapeito da ponte, meus pés do lado de fora brilhavam na luz do espetáculo. Os carros berravam em exaltação e pelo meu número. “Sou eu o meu espetáculo.” Meu coração batia fortemente. Batia muito forte, cheio de vida. Eu vibrava com as luzes dos carros. Fazia-me cheia de vida. Vale a pena a vida? Vale a pena a vida depois de Saulo ter me feito esta vertigem? Cheia do meu “eu”, meu coração foi aos meus ouvidos. As batidas foram aumentando, e, cada vez mais nítida, fechei meus olhos para ouvir mais o batuque cardíaco. A beira da ponte me foi sumindo, e meu corpo inclinando-se ao espetáculo. A batedeira do coração se tornou estranha. Caindo. Numa espécie diferente: tomei um murro no ombro.

CONTINUA…

◈ Próximo capítulo

 

17 de outubro de 2018

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4 comentários em “O desfecho de Flávia Albuquerque | CAPÍTULO I

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  1. Olá Raul! estou passando no seu blog para agradecer a sua visita no meu. Estou com meu tempo corridinho hoje, mas preciso de falar que achei seu espacinho muito interessante e pretendo voltar com calma para ler os seus textos =)

    Me aguarde e espero que retorne ao blog.Meu último post, bem atrasado, conta um pouco( bem sucinto mesmo) como foi a minha passagem pela bienal, se tiver interesse em olhar, deixarei aqui link:
    https://cinthiacavalieredavid.wordpress.com/2018/09/10/minha-primeira-bienal-como-autora/

    Um abraço,

    Curtido por 1 pessoa

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