O desfecho de Flávia Albuquerque | CAPÍTULO II

Capítulo anterior

aconchego
II

Aconchego

 

O delírio esvaiu-se de mim. Longe do abismo, meu corpo estava suspenso por um leito de plumas. Os sentidos voltaram. Braços contidos de calor desafogavam minha carne. Olhei, e minha visão devagar; com ângulo para o leste, vi a estrela da manhã. Os olhos verdes do colosso contrastavam com seu cabelo escuro. Sua pele de bronze luzia num aspecto angelical. Sobre as asas camufladas, na hora, não pude ver. Um breve suspiro me surgiu quando o homem entoou seu celeste canto:
— Moça, – ele cobriu-me com um sobretudo — você está bem? – arrumou meu cabelo desconjuntado — Podia ter morrido se caísse lá embaixo… Pelo amor de Deus, o que deu em ti? Queria se matar, hã!?
Nesta ocasião, eu poderia estar melhor de aparência, né? Seria capaz de mexer meu cabelo em charme. Minhas madeixas loiras trariam poder; as lágrimas não estragariam a beleza dos meus olhos-chocolate. Das maquiagens borradas, não formariam a aparência de um panda.
Nada. Nada saiu dos meus lábios carnudos. As maravilhas dele me calavam. Como seria possível? Um anjo!
Depois do delírio, depois da investida que tomei, tive uma sensação de que havia perdido algo. Ou esquecido algo, que deixado um objeto cair pra baixo da ponte.
Embora sentisse que os meus pertences ainda estavam comigo: um lindo Rolex da 25’; um sapato vermelho de saltinho; um colar escrito “AMOR ETERNO” que Saulo me dera, ai… que fiasco… enfim, eu estava com os acessórios que colocara antes de sair de casa. Minha bolsa, que evito seu conteúdo, se manteve em meu ombro. Tudo ok… Ainda, porém, estava com aquele peso. Tinha perdido algo; ou na real, senti que eu havia deixado um pedaço de mim. Algo de mim saíra de mim. Sim. O vazio que Saulo me deixara eu despejei ali, debaixo da ponte; o vazio livre para um tudo preencher.
Voltemos. Voltemos aos mais interessantes atos do meu salvador comigo. Sua preocupação a mim foi tanta! Tanta classe! Nem lhes conto sobre esse Lorde. Sobre esse Gentleman. Cavalheiro. Uma reverência. Uma gentileza. Nem lhes conto! Nem lhes conto de como foi sentir nas costas os bíceps dum semideus. Embraçado em mim assim, me levava de volta à estação. Pagou um bilhete de trem para mim; Generoso! Vestida com seu sobretudo… hm! jamais queria tirá-lo; exalava uma fragrância. Amadeirado, que perfume, hein!
Ele jamais sentira frio. Que poder… Impossível uma coisa dessas. Com os ventos a seu favor, o frio batia e cortava sua camisa, mas que presença! Nada o fazia tremelicar gelado. A prevalência chegou a tanto, que chegava a ser insuportável: um salvador cheiroso gentil belo como uma alvorada. Como assim? Tão insuportável assim? Mais qualidades que isso, aí não dá. Eu, hein!? Não se faz mais homem assim. Inexistente! Tão tudão que fiquei feita mongoloide. Digo que respondi todas as perguntas que ele me fizera; bati papo na melhor forma possível. Não me pergunte, leitora, sobre o que falamos… Na hora, também, raras as frases que eu prestei atenção, encantada. Talvez o príncipe até entendia da incompreensão minha às suas frases, (longe de ser metido) pelo meu estado de esbagaçada; não só como transtornada, usei desse pretexto para admirá-lo com sinceridade.
Em comparação com Saulo. Pobre Saulo, coitado. Pobre Saulo.
Saulo, michadinho canela-seca pó de vareta. Porém, visse que esse prato eu já comi, não cuspo, embora pelo asco! Bom, de nenhuma forma vocês não podem me julgar…
O garoto que me salvou, o salvador. Sendo tal, uma mulher casada pode admirá-lo? Mesmo se eu não fosse traída; uma mulher não pode? E se fosse uma mulher solteira, poderia admirá-lo? Sim? Poder ou não poder; eu quero é ter poder! Não julgueis para que não sejais julgados, oh leitorado. Sabemos que justiça e liberdade têm diferença.
Tenhamos justiça para com Saulo e liberdade para com Anjo (não confundir liberdade com libertinagem!). Que assim seja: amém.
Sem mais propagandas e pesadelos.
Já na estação de trem, respondi uma das demasiadas perguntas do garoto sobre onde eu morava.
— Não é da sua conta. — descontraí em cu doce.
— Da minha conta, não mesmo; mas a sua conta você não deu conta. Tanto que suas dívidas estão tão grandes que chegou a ponto de querer se suicidar. Não pagou a conta, né… — dum sorriso torno escapou-se uma risadinha.
É… vejamos que cada pessoa possui um limite. Supõe-se que, antes de sermos lançados, Deus atribui um certo montante de qualidades e defeitos. O meu, de fazer cu doce. O anjo, piadas toscas. Nada é perfeito. No mundo há imperfeições. Em mitos como este também, que Aquiles o diga.
Cedi, como o clichê previsto, o endereço da minha casa. Cu doce não dura muito, faz parte do charme. Ele, meu salvador Aquiles forçou companhia. Quis acompanhar-me.
Temeu que eu tentasse me matar novamente. Ah… né… a cu doce não dura tanto tempo. Este Aquiles me acompanhou até minha troia. Durante o caminho, não deixei de contar sobre a traição; contei-lhe resumidamente. Não notei se o lindo se sensibilizou, não me interessa também a vocês.
Eu, uma Cavala de Troia, guiada pelo grego Aquiles fora entregue à porta de casa. O herói deu-me “boa noite”, e zarpou antes d’eu retribui-lo de forma especial. Príamo, vosso Saulo, recebeu-me de braços arreganhados. Sua face correspondia uma sensação cínica de preocupação, saudade e de estranhamento; essa última expressão sucedeu ao verso:
— Nem me avisou onde estava, coração! Comprou um sobretudo? Olha. Bonito. Gostei, hein.
Deus. Ele esqueceu comigo o jaleco…
Se Saulo chegasse um pouco mais perto, sentiria o aroma amadeirado. Ele me questionaria sobre o cheiro na veste. Pensei em inventar alguma coisa: que tinha passado em uma perfumaria, provado uma fragrância masculina; contudo, não sou boa nas mentiras. Minha reação foi jogar o agasalho ao chão; e como que a meter o louco, fingi derrubá-lo. Na verdade não entendi ao certo o que fiz. O susto me acionou. Peguei- o de volta. Arrastei o casacão até a máquina de lavar, e o abafei junto dum monte de roupas na água; bem socada, soquei o botão lavar.
Sem tanto raciocínio, meus pés me levaram à janela da minha Troia. Onde estaria o meu Aquiles? Desejei retribuir aquele sujeitinho. Não só isso; mas, bem que ele poderia estar escondido no meu jardim, atrás das minhas flores onze-horas; (se é pedir muito) na varanda do lado de trás da casa; ou na frente do portão. Bastaria para dar um aceno, talvez fosse o suficiente pelo que fez por mim. Seria tudo, perto de nada que o dei.
Nesta noite, dialoguei consigo mesma ao chuveiro: servir alguém, já se tem uma gratificação; o prazer que se ganha por uma ajuda é imenso, mas, salvar a vida de alguém pode ser forte demais para não receber nenhum agradecimento.
Tá… Não tive clareza na hora… E, ademais, se tivesse gastaria o tempo admirando-o.
Lembro apenas disso naquela noite. Se bati um papo com Saulo, ou não, o piloto automático deu conta. Nem percebi. Um autoajuda que li me disse que lembranças são vidas já vividas (ah, vá!). Daí a verdade suprema: com Saulo não há vida vivida, não mais! Logo, morte. Sim. Morri para ele. É forte, mesmo, leitores. Para ele eu morri, que quase tirei meu “eu”, como leram no capítulo I.
Ah! Que peninha. Pequei rude em dois detalhes: não pedi o número dele, e também não perguntei o nome. Agora podem me xingar, bater mentalmente, só não rasgue este conto. Conto que escrevi com tanta estima, tem muita coisa que se salva ainda.
Ele na minha cabeça, adotei-o como Aquiles por enquanto.

Bastou-me demais dormir ao lado dum traíra. Porém, dormir no sentido do Aurélio: deitar e fechar os olhos; nada além disso… é óbvio!
Dias outros eu dormia na sala. Filmes e maratonas de séries (não me pergunte o final) serviram de pretexto para o paranauê. Pretendia cair no sono só no sofá por muito tempo. Bem que digo: pretendia, enfim…
— Dane-se. A casa também é minha; ou seja, a cama também é minha! Durmo onde quero.
Este foi um daqueles dias. Desliguei a televisão e fui ao meu quarto; o cujo estava lá; claro, onde deveria estar – que estante propício para ocorrer uma atrocidade! Paralisei. Olhei-o. Minha pungência focava num ponto: o pescoço. Meus braços começaram a enrijecer. As mãos a se afirmar. Saulo estava virado para cima, preparado para a dama da morte. Era só pular em cima e realizar o serviço. Pobre diabo… O quarto exalava fétidos aromas. Nem para morrer servia; Credo! Meu nariz caiu, que quase golfei em cima do ordinário. O podre da pinga misturava-se com um chulé podre e com um ronco de trator.
Desgraçado!
Voltei às minhas madrugadas de TV. Eu, covarde? Não me julguem, leitorado. Meu salto 15 me é precioso; não me atrevo a descê-lo. Acabar com ele só terminaria com os sofrimentos que a realidade o aguarda. Saulo merece pagar muito boleto ainda. Ah, se merece!
Raras as vezes em que Saulo perguntava sobre a minha reclusão. Engraçado. As necessidades fisiológicas dele não gritaram a mim. Ora, com quem será que ele atribui os prazeres. Na lacraia baratista’… e, sobretudo, tosco e inerte comigo. Fala-me Deus; e guia-me pelas veredas da justiça! Inerte estou…
A vida que segue. Frase clichê, mesmo. Se fosse por outro caminho, com outras palavras, eu rodearia pensamentos e chegaria à mesma sentença: a vida que segue. Há outro modo de fala que não defina esta expressão tão característica nossa? Não temos outra escapatória. Afinal, boa ou ruim, a vida segue. Não me venha com histórias de que o universo faz blá, blá blá… o universo não está nem aí pra minha vida. Bulhufas aí conosco.
A vida seguiu como devia seguir: Cama, trabalho, casa, cama (sofá), trabalho… Até que enfim, em um dia sextou. No caminho de casa, entrei naquele último vagão do começo deste conto. Modéstia à parte, eu estava muito diferente daquela vez; agora encantadora e majestosa.
— Ei, — só podia ser marreteiro, pensei. — É você que estava na estação Itaquera dias atrás? Na ponte?…

 

CONTINUA…

◈ Próximo capítulo

17 de outubro de 2018

logo

 

Anúncios

Um comentário em “O desfecho de Flávia Albuquerque | CAPÍTULO II

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

Seus Defeitos são suas Qualidades

Filosofia, psicologia, quebra de paradigma e relacionamento humano

NA PONTA DOS PÉS

Para quem ama as letras é fácil escrever, porém, não é fácil manter a cabeça no lugar. Um pouquinho de cada coisa, dança, desenho, música e o principal textos. Venha me acompanhar nessa aventura.

Poemas

Thomas Prado

MENSAGEM ESPÍRITA, POEMA, PRECE & POESIA

POESIA ESPÍRITA MENSAGEM DO BEM

rg próprio by Lu K Vilar

uma identidade feminina

Sentimento inoperante

Textos, Sentimentos, Fotos, Lugares, Signos

Gabriela Lopes | Arte & Poesia

Criações literárias e artísticas (reflexões)

Pratserie - Fernanda Prats à La Carte

Relatos da stylist que virou nômade digital pra viajar mais

Diogo Simões

Onde tudo o que me inspira, se encontra

PROJETOS NO PAPEL

Projetos no Papel

%d blogueiros gostam disto: