O desfecho de Flávia Albuquerque | CAPÍTULO III

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sol dam

 

III
O sol da manhã sempre renasce

Opa… que marreteiro!… Eis que, meu sol da manhã… Aquiles…
— Sim! Sou eu mesma, ‘deuso! Em que paraíso tu estiveste? Que saudades… — só podia ter pensado nisso. Sei que sou recatada e do lar; mas na minha situação, e que bem sabem, leitores, com tais necessidades, não estava tranquila, nem favorável. E se eu fosse do lar, seria do lar de quem?… do Saulo não; não, mesmo; só se fosse do meu lar. Pois, Saulo… eu matei Saulo… Pasmem! Como bem sabem: Saulo morrera aquela noite. Morrera em mim. Muito melhor. Poderia ser fisicamente, como bem queiram. Mas, vão por mim, é bem pior quando se morre no interior.
Agora, eu, senhorita Albuquerque, prometo mata-lo mais uma vez aqui. Mata-lo às palavras. Não quero ver Saulo pintado, quão dirá impresso às letras… Isso eu não mereço, nem vocês! Prometo, portanto, não lhes causar mais martírio.
A seguir; primordial e merecido, retomo ao herói. Respondi a ele:
— Oi! Sou eu, sim! — classuda, fingi ser lady. Prendi com nó as emoções; porém, um pouco escapou: — Me esqueci de te agradecer… É que… Olha, na verdade não sei como agradec..,
— Que é isso… eu só estava no lugar certo e na hora certa. Fiz o que qualquer um faria ali.
— Ah, mas mesmo assim, vou retribuir de alguma forma, viu…
— N’esquenta. Deixa pra lá, moça. — ele me chamou de moça. Poxa, ser chamada de moça é triste.
Muito despretensiosa, longe da intensão de vê-lo novamente. Imagina! Lembrei-lhe que eu devolveria o sobretudo. Aproveitei e contei o que ocorreu quando ataquei o casaco à máquina. Aquiles riu do caso. Para mim a cena não era tão engraçada. Maldita paixão ou coisa parecida que nos faz rir de um “A” na companhia do mozão. Ri.
Ríamos, ríamos muito. Na vez dele, contou-me sobre que aconteceu após me entregar em Troia – perdeu o último ônibus e teve de voltar de motorista de aplicativo. Kids, para mim foi engraçadíssimo; para ele, não. Ah.
Que tempo de qualidade que tivemos… Queria amarrar tal tempo e o espaço para ficar gargalhando sobre qualquer coisa e jogando papos aleatórios ao ar; contemplar os olhos dele em brilho; observar cada movimento da sua boca enquanto declamava nossas conversas; sentir seu cheiro, sentir adentrar das minhas narinas ao meu interior, seu perfume natural da pele.
Bobões. Não demos conta que nossas estações de saída haviam passado. As amarras nos levaram à última estação, aquela em que ele me salvara.
Tivemos que ir à plataforma reversa. Voltamos em outro trem. Já conhecidos íntimos, um pingo de timidez ainda pairava.
— Ah!… Deus do céu; fale-me logo qual é seu nome e seu telefone! Não posso esquecer de novo. Desta vez não vou embora antes de ter seu número…
Confesso que esse pedido estava na ponta da minha língua. Meu pensamento martelou; até, enfim, soltar a exclamação.
— É Noah Nunes.
E trocamos os números. Na agenda inseri seu nome e um adjetivo; (Noah ******) que vocês nunca irão saber qual adjetivo. Liberto vossa imaginação, oh leitores. Assim, brinco com a fantasia. Findado o encontro inusitado e perfeito; um abraço prolongado nos veio, e fomos embora, cada um a seu cafofo.
Noah… que esquisito. Me pareceu esquisito tanto quanto o nome, que combinou.
Estranho não, mas esquisito. Sua definição é esta: Noah é esquisito. Muitos confundem esse vocábulo ao apenas dar sentidos pejorativos. Por isso, em urgência, carece-se de recorrer ao significado. Em latim: exquisitus – apurado, requintado. Amém! Na nossa língua, principal: esquisito – que não se encontra com facilidade. Aí onde quero chegar.
Raro Noah. Minha semana nunca seria tão monótona. A TV da sala passou a ter serventia nenhuma; a não ser em emanar algum barulho e luz para não me sentir só.
Fiquei imersa ao celular. Celular com Noah. E acolá, Ele no celular com Flávia.
Pensem comigo, leitores. Mereço viver com quem chega em casa e me dá um boa noite como se fosse um ritual? Mero ritual que não segue consequência de um: como foi seu dia? Mereço uma pessoa que quando chego, exausta, na maioria das vezes, está no último sono? É assim a vida, mesmo? Chega a ser um nível de escravidão. Mínimo, mas escravidão.
Virando e virando tudo. A química trabalha. Até pedra sofre. Tudo muda desde o mais simplíssimo detalhe. A química, porém, só reage através de um índice. O indício químico da minha mudança foi baratície; literalmente a causa legítima da traição. Meu coração se metamorfoseou a partir da baratície. Posso dizer que se divergiu para melhor. Muito melhor! O coração funciona por um domínio do cérebro, afinal. Não acha, leitor, que é impossível fazer que o coração manda? Pois não manda em nada. Coração manda em nada. O cérebro é quem manda. Mandou-me sair da fria. Da friaca. Ainda bem!
Tido adultério, trouxe-me à liberdade. Se eu não visse a sena do crime, continuaria acorrentada; pior, sem enxergar as correntes. Agora, portanto, sei que sei.
Vocês têm coisas a dizer; então, lhes dou voz a vocês, leitorado. Podem dizer-me para esquecer tudo e partir para Noah.
Embora Noah me pareça um semideus; aquele quem eu estava, antes do papel, também me era. Aliás, não chega a tal prestígio dum semideus, mas tudo bem. Eu o idealizava tanto…
Há de me expressar que: só neste estado em que estou; dialogando com Noah – quem mais se importa comigo – me sinto mulher.
Santo momento em que recebi essa mensagem:
— Sabe, Flá; eu ‘tava pensando… Que tal a gente tirar um dia para tomar um café… ou uma ‘breja? Nada de mais. Só pra curtir o momento, mesmo. Sem pretensões, e com todo o respeito, é claro. Sei que você é casada; então, se não puder… ok; de boas… Vou entender.
Li a mensagem. Olhei ao lado. Luzes apagadas. Pra variar, sozinha na sala, estava de frente para a luz da televisão que iluminava. No canal que estava, se transmitia um programa tosco (não digo o nome, porque ninguém faz propaganda de mim) que passava após às duas da manhã. Continuei a fitar a TV, e tantos pensamentos vieram a mim. Saí de mim. Esperei tanto essa mensagem!
Quando me conecto a Noah, saio do universo. Ligada a ele, não tenho tempo e espaço.
Reli a mensagem. Esquivei meu olhar para o vazio escuro. E aí; o que respondo?
Meus batimentos ficaram tão fortes que meu celular balançou. Tremi na base! E agora… Vou ou não vou? Meditei um sim. Se eu for, não é nenhum crime. Ué, se ele deixou bem claro o “sem pretensões”, não há o que temer. E se tivesse pretensões, qual o problema? Por que estou tremendo? Eu, hein… Por mim, estou casada só no papel!
Escrevi e apaguei várias mensagens a fim de responder da melhor forma. Meu, que desespero é esse?…
— Bora! — não disse mais nada. Melhor não enfeitar, senão pode sair merda. Não mexi. Nunca se mexe em time que está ganhando.

CONTINUA…

Próximo capítulo

17 de outubro de 2018

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