O desfecho de Flávia Albuquerque | CAPÍTULO IV

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sextou

IV
Sextou!

Santa sexta. Fomos sexta.
Para evitar transtornos, pedi para que ele sugerisse um lugar próximo à casa dele; de São Paulo, mesmo. Fomos a um bar estiloso no bairro de São Mateus. O Portal do Vinho é de melhor referência. Conforto, tranquilidade, e cortesia são suas primícias. Na entrada, se tem um portal a caráter faroeste. Dentro, à esquerda e direita mesas e cadeiras rústicas brilham aos primeiros olhares. Atrás do balcão, enfileirados estão todas as marcas de vinhos do Brasil possíveis; além de bebidas artesanais.
Se no salão estiver lotado de gente, (que foi o caso), alguns tonéis espalhados aqui e acolá servem para assento.
Onde moramos, a maioria dos bares têm bebuns enchendo o saco, música estourando tímpano, e cheiro de cachaça (em demasia). Admito que o Portal do Vinho seja diferente da minha realidade. Que me é ótimo! Com Noah; nessa especial ocasião: um escape. Um escape de tudo.
Não nos embriagamos com o vinho.
Enfoco – não embriagamos com o vinho; mas foi combustível para nossas conversas.
Não sobraram fofocas; já que só se fofoca quando carece de assuntos, né? Voaram papos sobre tudo; desde lembranças da infância até as piores gafes e micos do cotidiano. E se espalharam… sobre tudo!
Não nos embriagamoss com o vinho. Enfoco.
E dá-lhe conversa. Conversas. Conversssaas……… Coonvvvsa. Com versa… Coom vversa. Vice-versa. Vvice e veerrsa. A versa & o vice. O vice que derrubou o viço.
Derrubbou o ranço. E tudo o mais. E tudo o maissss …………………………………………………
……………………………………………………………………………………………………………………………
Não nos embriagamos e o beij..o… Beijo… E o beijaço!

Após o desfecho, rimos, rimos, e rimos. Rimos. Riiiimos. E parou.
Nos entreolhamos. Surgiu o constrangimento. Mesmo aos sabores do sagrado vinho, não muito embriagados, estranhei a mim; e Noah contribuiu com estranhamento igual. Nossos olhos se abriram. A minha vontade era esconder-me dentro dum tonel ali.
Permanecemos como Adão e Eva pós-pecado-original.

Pós-beijo, jamais nos olhamos como dantes. O clima mudou tanto, que é necessária à repetição daquela palavra: foi esquisito. Ficamos esquisitos.
Oh! Pecamos; que absurdo. Noah disparou contra o silêncio:
— Flávia… — coçou a têmpora, fugiu-lhe novamente um riso de canto — O que está acontecendo? Explique pra mim?
Bem que ele poderia me questionar uma pergunta mais fácil.
— O amor não se explica — não! é claro que eu não disse isso. Como eu adoro clichês, eu não disse, mesmo. Passou-me pela ponta da língua, porém.
Santíssimo vinho hein.
E não o respondi. Talvez meu comportamento de olhar para as pontas do meu cabelo, caçando pontas duplas, demonstrasse alguma resposta.
Noah insistiu:
— Não sou moleque. Não quero ser moleque. Não quero que tu sejas vítima de molecagem de novo…
— Perigosas três negações… — pensei, e continuei a fingir demência, rodeando meu indicador na borda duma taça de vinho.
— Você precisa acertar as coisas… — uhuul…— E sabe do que estou falando.
Eu sabia muito bem o que Noah se referiu. Há muito, sabia que precisaria acertar as coisas com meu casamento-de-papel. Eu sabia até antes do meu corpo se declinar ao beijo. Já sabia. Eu havia meditado no acerto desde quando eu estava me trocando antes de ir ao Portal do Vinho. No meu carro, pensei tanto que pensei em desistir, voltar para casa. Vieram-me à cabeça as cautelas que eu teria na presença de Noah. Minha sensatez, lida no Portal do Vinho, porém, não durou muito.
Confirmo ainda que nosso primeiro beijo foi histórico, e jamais culparei o vinho! Temos o total controle quando estamos embriagados, eu digo. Se, agora, o meu desejo de me envolver com Noah estivesse escondido nas nuances do meu subconsciente, eu já não sei. Declaro que eu estava sincera consigo mesma. Então, aconteceu e entreguei-me porque quis.
Sobretudo, raciocinei que a minha moral, após o ato, igualara a Saulo. Eu não podia ficar abaixo neste conto. Nunca igual ao cujo! O pântano me enoja.
Durante meu devaneio Noah olhava-me fixamente. Prendi meu cabelo. Tal ritual motivou minha decisão…
— Venha comigo. Vou a minha casa, farei minhas malas. Fugiremos aonde o sol nos levar.

CONTINUA…

17 de outubro de 2018

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